AS GRANDES BIBLIOTECAS DO BUDISMO TIBETANO um tesouro salvo da História
AS GRANDES BIBLIOTECAS DO BUDISMO TIBETANO
Quando se afirma que o tibetano se tornou uma das mais vastas bibliotecas espirituais do mundo, não é uma imagem poética. Entre os séculos VIII e XVII, milhares de tradutores, monges, iogues, filósofos e escribas realizaram uma das mais extraordinárias empreitadas de conservação do saber da humanidade. O paradoxo é marcante: enquanto o budismo desaparecia progressivamente do seu berço indiano após o século XII, uma imensa parte do seu património intelectual sobrevivia no Tibete. O Tibete, conservatório da Índia budista Entre os séculos VIII e XIII, os maiores mestres indianos viajaram para o Tibete: Padmasambhava, Śāntarakṣita, Atiśa, m a s t a m b é n u m e r o s o s p a n d i t s d a s u n i v e r s i d a d e s de Nalandā, Vikramaśīla e Odantapuri. Muitas universidades iriam desenvolver-se, as de Nālandā, Vikramaśīla e Odantapuri. Quando estas universidades foram destruídas durante as invasões turco-afegãs dos séculos XII e XIII, uma grande parte das obras sânscritas desapareceram. Mas as suas traduções tibetanas permaneceram. Assim, ainda hoje, alguns textos indianos são conhecidos apenas graças à sua tradução tibetana. DUAS GRANDES BIBLIOTECAS DO CÂNON TIBETANO O Kangyur (Kanjur: «Tradução das palavras do Buda») Reúne os sutras, os textos do Mahāyāna, os ensinamentos tântricos, as regras monásticas. Cerca de 100 a 110 volumes. O Tengyur (Tanjur: «Tradução dos comentários») Contém: filosofia, lógica, psicologia, medicina, astronomia, poesia, gramática, comentários dos mestres indianos. Mais de 220 volumes. Juntas, estas duas coleções representam vários milhões de palavras. OS GRANDES MOSTEIROS-BIBLIOTECAS Antes de 1950, os principais centros de conservação eram: Mosteiro de Drepung Até 10 000 monges. Imensa biblioteca de filosofia, lógica e meditação. Mosteiro de Sera Centro principal de estudos dialéticos. Milhares de manuscritos. Mosteiro de Ganden Fundado por Tsongkhapa. Biblioteca notável. Mosteiro de Tashilhunpo Sede tradicional dos Panchen Lamas. Mosteiro de Sakya Provavelmente o mais extraordinário. A sua biblioteca ainda hoje contém dezenas de milhares de manuscritos antigos. Uma parte ainda não está totalmente catalogada. A CHEGADA DOS CHINESES A entrada do exército da República Popular da China no Tibete em 1950 abriu um período dramático.No início, alguns mosteiros subsistiram. Depois ocorreu a catástrofe da Revolução Cultural. Destruições massivas Entre 1966 e 1976: mosteiros fechados, estátuas destruídas, bibliotecas incendiadas, manuscritos dispersos, obras de arte queimadas. Milhares de volumes desapareceram. Alguns historiadores estimam que mais de 90% das instituições monásticas tibetanas foram destruídas ou gravemente danificadas durante este período. Como os textos foram salvos Felizmente, muitos mestres tinham fugido antes das destruições. Em 1959, após a insurreição de Lhassa, o jovem Tenzin Gyatso deixou o Tibete com milhares de refugiados. Nas suas bagagens, foram levados manuscritos, xilogravuras, textos sagrados, arquivos. Por vezes transportados às costas de iaques ou escondidos nas vestes. O NOVO TIBETE DAS BIBLIOTECAS O renascimento ocorreu principalmente na Índia. Library of Tibetan Works and Archives Fundada em 1970, conserva dezenas de milhares de manuscritos, arquivos históricos, gravações orais, fotografias. Uma das mais importantes bibliotecas tibetanas do mundo. Tibetan Institute of Performing Arts Salvaguarda do património cultural. Central Institute of Higher Tibetan Studies Pesquisa universitária de alto nível. O QUE RESTA HOJE O legado tibetano está longe de ter desaparecido. Estima-se que quase a totalidade do Kangyur foi preservada, quase a totalidade do Tengyur ainda existe, centenas de milhares de manuscritos são conservados, milhares foram digitalizados. Hoje, projetos internacionais fotografam e digitalizam sistematicamente as coleções tibetanas dispersas entre a Índia, o Nepal, o Butão, a Mongólia, a Europa, a América do Norte e o próprio Tibete. O MILAGRE DO LEGADO TIBETANO Um dos maiores milagres culturais da história é que o Tibete conservou uma imensa parte do pensamento da Índia budista medieval que a própria Índia tinha perdido. Quando as bibliotecas de Nālandā arderam, muitos pensaram que esse legado tinha desaparecido para sempre. No entanto, séculos antes, tradutores tibetanos tinham copiado pacientemente cada linha, cada comentário, cada tratado de lógica, meditação, medicina ou filosofia. Assim, ainda hoje, quando um pesquisador quer compreender certos ensinamentos de Nāgārjuna, de Asaṅga, de Vasubandhu ou de Dharmakīrti, ele consulta frequentemente as traduções tibetanas. O Tibete não foi, portanto, apenas um país de prática espiritual. Foi a grande arca de salvaguarda da memória budista da Ásia, uma arca que, apesar das invasões, guerras e revoluções, continua hoje a transmitir ao mundo uma das mais vastas bibliotecas espirituais jamais constituídas.
Aliénor e Alain Delaporte-Digard BUDDHACHANNEL FRANÇA